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Observatório de Conflitos

Acompanhamento sistemático de conflitos armados e crises geopolíticas em andamento globalmente, pelo NPSeD/UFSC.

27
Conflitos
monitorados
4
Categorias
UCDP · COW
ago/2026
Última
atualização

Sudão do Sul

Localização
Mapa do conflito: Sudão do Sul
Classificação
Guerra Intraestatal
Guerra civil por controle central
África
Status
Ativo
Principais combatentes
Forças de Defesa do Povo do Sudão do Sul (SSPDF) × facções do Movimento/Exército de Libertação do Povo do Sudão na Oposição (SPLM/A-IO) × milícias comunitárias e forças armadas locais

Última atualização ago/2026

Ao longo de 2025 ocorreu no Sudão do Sul uma escalada das tensões entre os grupos políticos que disputam o poder no país, motivada principalmente pela intensificação da perseguição dos opositores políticos de Kiir, que culminou na prisão domiciliar do vice-presidente Machar. Por consequência, o Exército Branco de Machar resumiu operações de insurgência e ataques às bases militares das Forças Armadas do Sudão do Sul, com o combate se concentrando na província de Juba. Em resposta, o presidente Kiir solicitou apoio militar de Uganda que, de acordo com a ONU, realizou diversos ataques aéreos contra as forças de Machar. Como resultado da nova escalada da violência, ao longo do ano as Nações Unidas registraram 370 mil novos refugiados internos, somados aos 2,6 milhões já deslocados internamente ao longo dos anos de conflito.

Ademais, no final de 2025 e início de 2026, os combates se espalharam para outras partes do país, resultando no bombardeamento de civis, massacre de comunidades e confrontos com a Missão de Paz da ONU no país que, somando-se aos quase 1 milhão de refugiados vindos do Sudão, que também está em conflito, agravaram ainda mais a crise humanitária no Sudão do Sul. Ademais, o vice-presidente Machar, suspenso do cargo, permanece preso pelas forças de Kiir, aguardando julgamento por crimes contra a humanidade, traição, assassinato e conspiração.

Histórico

Em 15 de dezembro de 2013 ocorreu o início de uma guerra civil no Sudão do Sul, gerada primariamente por uma disputa política entre o presidente e vice-presidente do país, mas que logo escalou para um conflito multifacetado, marcado por grandes violações dos direitos humanos, alto número de baixas civis, confrontos étnicos e uma forte crise econômica e humanitária. Apesar da guerra ter oficialmente terminado em fevereiro de 2020, a situação no país permanece precária, e o risco da eclosão de um novo conflito permanece significativo ainda em 2025.

Após quase 50 anos de guerra civil, no que ficaram conhecidas como Primeira Guerra Civil Sudanesa (1955-1972) e a Segunda Guerra Civil Sudanesa (1983-2005), foi assinado, em 2005, o Amplo Acordo de Paz, que garantia maior autonomia para o Sudão do Sul, então ainda parte do Sudão, e a previsão para a realização de um referendo de secessão, o qual foi realizado em 9 de julho de 2011, com 99% dos votantes foram favoráveis à emancipação do novo país. Entre as principais razões para a independência do Sudão do Sul estavam a marginalização da população majoritariamente cristã do Sul, em relação ao norte onde predominam árabes sudaneses muçulmano. Além disso, as reservas de petróleo localizadas no território do que será o Sudão do Sul eram controladas pelas elites econômicas ao norte, com as riquezas geradas não trazendo benefícios reais para a população do Sul (Britannica, 2025; Center For Preventive Action, 2025). Entretanto, apesar da conquista de secessão, o Sudão do Sul nasce com uma série de instabilidades, com o governo liderado pelo partido SPLM (Movimento de Libertação do Povo do Sudão), na capital Juba, enfrentou turbulências políticas, agravadas pelas fracas instituições governamentais do recente país e por tensões e conflitos étnicos pré-existentes (Uppsala Conflict Data Program, 2024).

Ademais, internamente ao SPLM, os conflitos políticos dentro do partido entre o então presidente e vice-presidente do país, respectivamente Salva Kiir e Riek Machar, foram o estopim para o início da guerra civil, na qual diferentes grupos políticos e étnicos apoiaram lados opostos do conflito. A disputa política entre Kiir e Machar fundamentava-se em desconfianças políticas e pessoais, como por exemplo o fato de que Machar já havia lutado contra o SPLM na década de 90 e criticava a forma autoritária de como Kiir conduzia o governo, bem como em diferenças étnicas, visto que Kiir pertence ao grupo étnico Dinka e Machar é da etnia Neur. Além disso, a falta de institucionalização das Forças Armadas é também apontada como uma das bases do conflito, com muitos comandantes dispondo de relações informais de lealdade a certos grupos políticos, para além da incorporação ao exército de diversas milícias que participaram nas guerras civis anteriores, agravando ainda mais a fragmentação institucional. Dessa forma, quando houve um tiroteio dentro de um quartel entre soldados de facções rivais, Kiir instrumentalizou o incidente como uma acusação de tentativa de golpe por parte de Machar, que fugiu do país. A repressão política que se seguiu escalou-se para uma Guerra Civil. (Center For Preventive Action, 2025; De Waal, 2016; Uppsala Conflict Data Program, 2024). Além disso, é importante salientar a pluralidade de atores internos, não necessariamente ligados diretamente ao conflito político que serviu de estopim para a Guerra Civil, como mais uma consequência da falta de uma base institucional no país, resultado em uma multiplicidade de grupos armados lutando pelos próprios interesses, como por exemplo os Gelweg e Titweg pertencentes às comunidades de pastoreio Dinka à noroeste do país, o Exército Branco Nuer, que existe desde a década de 90 e protege as comunidades Neur à leste, entre outras milícias locais (African Security Sector Network, 2025).

É notável, portanto, a dimensão étnica do conflito, não como uma causa da guerra, mas como um fator de agravamento adicionado à disputa por poder político, acentuando a violência disseminada contra civis por todo o país, resultando em diversos massacres étnicos, e violações dos direitos humanos. A partir disso, a guerra atingiu sete das dez províncias do país, com as regiões do Alto Nilo, Unidade Jonglei e Equatória Central sendo as mais afetadas, com as duas primeiras sendo, inclusive, as principais produtoras de petróleo do país, destacando a dimensão econômica do conflito. Além disso, a guerra resultou numa ruptura da economia agrária de subsistência local, resultando numa crise alimentícia, conforme declaração do Conselho de Segurança da ONU em 2014, o que agravou ainda mais a crise humanitária no país na medida em que a fome se alastrava pela região., (Center For Preventive Action, 2025; De Waal, 2014; Uppsala Conflict Data Program, 2024).

Soma-se a isso, também, as intervenções e ingerências estrangeiras na região como mais elementos que agravaram o conflito no Sudão do Sul, como por exemplo a intervenção militar de Uganda contra as forças de Machar, o apoio do Sudão a certos grupos rebeldes, o fornecimento de armas à Kiir por parte da China, a flexibilização do embargo de armas por parte dos EUA (Center For Preventive Action, 2025; Mutasa; Virk, 2017;).

Esforços de mediação internacional também se fazem presentes na Região. A Missão das Nações Unidas (UNIMISS), que operava no país desde 2011, a partir da eclosão do conflito reformula seu mandato para a proteção de civis e dos direitos humanos em vez da construção estatal e reforça seu componente militar com vias a manter a estabilidade no frágil e recém independente país. Outro ator relevante no processo de negociação de paz é a Autoridade Internacional para o Desenvolvimento (IGAD), um bloco comercial composto por oito países da África Oriental, com sede em Djibouti, o qual iniciou os processos para fomentar as negociações diplomáticas com o objetivo de encerrar o conflito armado. O esforço do IGAD foi inicialmente criticado pela parcialidade, visto que Uganda e Sudão, os quais intervieram, até mesmo militarmente, no conflito, são membros do bloco. Apesar disso, tal esforço resultou, em agosto de 2015, em um acordo de paz entre Kiir e Machar, entretanto, assim que Machar retornou à capital no ano seguinte, após mais de 2 anos em exílio, para reassumir o cargo de vice-presidente, houve uma nova erupção dos conflitos entre as Forças do Governo de Kiir e o Movimento Popular de Libertação em Oposição (SPLA-IO), liderado por Machar (Center For Preventive Action, 2025; Mutasa; Virk, 2017; UNMISS, 2025, Uppsala Conflict Data Program, 2024).

Além disso, conforme a guerra ganhava intensidade novamente, diversas tentativas de cessar-fogo falharam entre 2017 e 2018, sendo somente em junho de 2018 que as negociações de paz ganharam nova tração, a partir da qual foi assinada a Declaração do Acordo de Khartoum, e que foi seguida for um acordo final de cessar-fogo em agosto daquele ano. Entre os instrumentos utilizados para se alcançar a paz, estavam a criação de uma nova estrutura de compartilhamento de poder entre Kiir e Machar, que serviu como fundamento para a formação de um novo Governo de Unidade em 2020, com Machar sendo restaurado ao cargo de vice-presidente (Center For Preventive Action, 2025; Mutasa; Virk, 2017; Uppsala Conflict Data Program, 2024).

Entretanto, no ano de 2025 a situação do Sudão do Sul permanece precária. O país enfrenta uma severa crise humanitária, com dois terços da população em situação de insegurança alimentar, para além de campos de refugiados lotados, algo que foi agravado ainda mais com o início de uma nova guerra civil no Sudão, em 2023. Questões como reformas institucionais, forças de segurança e sistema eleitoral permanecem sem total resolução, e as eleições para a presidência foram adiadas para 2026, em meio às tensões de que uma corrida eleitoral entre Kiir e Machar possa reacender o conflito armado. Ainda, como agravante à situação, o cenário político no Sudão do Sul encontra-se em deterioração, com novos confrontos entre as Forças Armadas governamentais e milícias afiliadas ao SPLA-IO e disputas com o governo do Sudão pela região fronteiriça do Abyei. Por fim, em março de 2025 diversos aliados de Machar foram presos, com a residência do vice-presidente sendo cercada temporariamente, o que explicita a fragilidade da atual “paz” no país, que pode estar prestes a mergulhar em um novo conflito (Center For Preventive Action, 2025).

Referências

CENTER for Preventive Action. Instability in South Sudan. Global Conflict Tracker, 2025. Disponível em: https://www.cfr.org/global-conflict-tracker/conflict/civil-war-south-sudan. Acesso em: 11 mai. 2025

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UNIMISS. United Nations Mission in South Sudan – Background. UNIMISS. Disponível em: https://unmiss.unmissions.org/background. Acesso em: 12 mai. 2025.

UNITED Nations. UNMISS Fact sheet - United Nations Mission in the Republic of South Sudan. United Nations Peacekeeping. Disponível em: https://peacekeeping.un.org/en/mission/unmiss. Acesso em: 11 mai, 2025.

UPPSALA Conflict Data Program. Conflict – South Sudan: Government. UCDP, 2025. Disponível em: https://ucdp.uu.se/conflict/11345. Acesso em 11 mai. 2025.

UPPSALA Conflict Data Program. Country – South Sudan. UCDP, 2025. Disponível em: https://ucdp.uu.se/country/626. Acesso em: 11 mai. 2025.

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