Observatório de Conflitos
Acompanhamento sistemático de conflitos armados e crises geopolíticas em andamento globalmente, pelo NPSeD/UFSC.
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atualização
Síria e Israel
Última atualização ago/2026
Em 2026, as relações entre Síria e Israel foram marcadas pela consolidação da presença militar israelense no sul sírio e, simultaneamente, por tentativas de estabelecer um acordo de segurança. A presença israelense se expandiu para além da Linha Alpha, com mais de 800 incursões em território sírio registradas entre dezembro de 2024 e janeiro de 2026, incluindo uma que avançou cerca de 63 km para dentro da Síria, além da formação de uma faixa de controle de fato estimada em 235 km², do Monte Hermon ao rio Yarmouk. As províncias de Quneitra e Daraa permaneceram no centro das tensões, com incursões recorrentes, instalação de postos militares e restrições ao acesso de agricultores e pastores às suas terras, prejudicando os meios de subsistência locais. Em julho de 2025, a questão drusa tornou-se um dos principais vetores de tensão: confrontos entre grupos drusos, beduínos e forças do governo sírio em Sweida deixaram cerca de 1.000 mortos, incluindo centenas de civis drusos, levando Israel a lançar ataques contra forças sírias em Sweida e contra o Ministério da Defesa em Damasco, alegando proteger a população drusa, em meio a um cessar-fogo que rapidamente entrou em colapso. A escalada também impulsionou esforços diplomáticos: ainda em julho, autoridades sírias e israelenses realizaram conversas mediadas pelos Estados Unidos em Paris sobre a desescalada do conflito, sem chegar a um acordo final, enquanto Damasco responsabilizava Israel pela escalada.
Em janeiro de 2026, Síria e Israel retomaram as conversas de segurança mediadas pelos Estados Unidos, com Damasco exigindo a retirada das tropas israelenses para as posições anteriores à queda de Bashar al-Assad e a reativação do acordo de 1974. A questão drusa seguiu relevante: em março, Israel voltou a atacar posições do governo sírio em resposta a novos episódios de violência contra civis drusos em Sweida. Em julho, o presidente sírio Ahmed al-Sharaa afirmou que Damasco buscava um acordo de segurança com Israel capaz de abrir caminho para uma paz mais abrangente, sem renunciar à reivindicação síria sobre as Colinas de Golã. Ainda assim, o avanço diplomático coexistiu com novas incursões: durante a visita do secretário-geral da ONU, António Guterres, à Síria - a primeira de um chefe da ONU ao país desde 2009 -,Israel realizou novas operações no sudoeste sírio, enquanto Guterres condenou as violações e defendeu o respeito à soberania síria. Assim, até agosto de 2026, a relação entre Síria e Israel permanece marcada pela coexistência entre negociação e escalada: embora os canais diplomáticos tenham avançado e exista interesse em um acordo de segurança, a presença militar israelense no sul sírio, a disputa sobre a desmilitarização e as Colinas de Golã e os episódios recorrentes de violência envolvendo a população drusa continuam impedindo uma normalização das relações.
Histórico
O conflito envolve uma hostilidade histórica, que remonta à criação do Estado de Israel em 1948, e desde então não houve um tratado de paz entre os dois países. A principal disputa é pelas Colinas de Golã, um território sírio ocupado por Israel desde 1967 e anexado em 1981, sem reconhecimento internacional. Essa região é fundamental para ambos os países, pois envolve interesses estratégicos, de segurança e de recursos naturais. Além disso, a presença do povo druso, que vive nos dois países e se concentra nas colinas, torna a situação ainda mais complexa. Até hoje, o conflito não foi oficialmente encerrado e continua por meio de tensões e ataques ocasionais, sem avanços diplomáticos significativos.
Nesse contexto, as Colinas de Golã são o ponto central do conflito, pois oferecem vantagem militar defensiva para ambos países. A região serviu como base de artilharia da Síria entre 1928 e 1967, mas atualmente fortalece a defesa de Israel, visto que a topografia do local é uma barreira natural contra possíveis ataques militares da Síria. Sua localização também é estratégica, permitindo observar Damasco, capital síria, o que a torna ainda mais importante. As colinas também concentram recursos hídricos e agrícolas - cerca de um terço da água usada por Israel vem dali, e o solo é fértil e usado para agricultura (Britannica, 2025; BBC; 2024; DW, 2025; Middle East Eye, 2024).
Outro fator relevante é a presença dos drusos, um grupo étnico-religioso presente tanto na Síria quanto em Israel, concentrando-se principalmente no norte israelense, na região síria de Suwayda e, em maior número, nas Colinas de Golã. Estima-se que sejam cerca de 150 mil em Israel, dos quais 20% têm cidadania, e 700 mil na Síria, o que representa 3% da população. Em Israel, alguns servem no exército e ocupam cargos de destaque. Os drusos também possuem divisões políticas, com parte apoiando o governo sírio, enquanto outros pedem proteção interna ou se aproximam de Israel (Britannica, 2025; BBC; 2024; DW, 2025; Middle East Eye, 2024).
Historicamente, a disputa entre os dois países é antiga e começou na Primeira Guerra Árabe-Israelense, quando a Síria participou da rejeição árabe ao plano da ONU que dividia a Palestina em dois Estados, um judeu e um árabe, após a criação de Israel em 1948. Israel saiu vitorioso. A Síria manteve as Colinas de Golã até 1967, quando Israel ocupou a região na Guerra dos Seis Dias. Em 1973, durante a Guerra do Yom Kippur, a Síria tentou recuperar o território, mas não obteve sucesso. Nessa época, cerca de cinco aldeias, em sua maioria drusas, permaneceram na região e receberam cidadania israelense, embora a maioria ainda tenha continuado com a cidadania síria. Em 1974, Israel e Síria assinaram um acordo que criou uma zona-tampão monitorada pela ONU nas Colinas, sob a Força Observação de Desengajamento (UNDOF), cujo mandato passou a ser renovado a cada seis meses. Em 1981, Israel anexou unilateralmente a área (Britannica, 2025; Reuters, 2008).
Desse modo, em 2016, a região, com a anexação israelense em 1981 e o estabelecimento da zona-tampão sob monitoramento da ONU, apresentava a seguinte configuração:
[Figura não reproduzida nesta versão. Fonte: Central Bureau of Statistics, 2016]
Em 1991, iniciaram-se negociações entre Síria e Israel em Madri, que se alongaram até seu fracasso em 2000, em parte devido à exigência síria de retirada total de Israel das Colinas de Golã. Em 2008, as conversas foram retomadas com mediação da Turquia, mas fracassaram novamente após o ministro israelense renunciar. Em 2009, com Benjamin Netanyahu como primeiro-ministro, Israel indicou que iria adotar uma postura mais rígida sobre as colinas, e a Síria afirmou que não havia parceiro israelense para continuar as negociações. Durante sua administração nos EUA, Barack Obama, afirmou que um dos objetivos da sua política era a retomada da negociação entre os países, mas o início da guerra civil na Síria em 2011 encerra qualquer possibilidade de avanço (BBC, 2024; Britannica, 2025).
A guerra civil na Síria (2011–2024) foi enfraquecendo o regime de Assad. Durante o conflito, Israel manteve certa neutralidade, mas atacou alvos do Irã e do Hezbollah no território sírio. Em dezembro de 2024, Assad foi deposto e Ahmad al-Sharaa assumiu a presidência, declarando que o novo governo não buscava uma guerra com Israel. Após a queda de Assad, tropas israelenses avançaram além da zona desmilitarizada na fronteira, monitorada pelas Nações Unidas desde 1974, e realizaram centenas de ataques contra a Síria, chegando a ocupar algumas áreas logo após a saída de Assad. No território sírio, Israel busca impedir o estabelecimento de uma presença militar dos seus rivais, tremendo o fortalecimento dessas forças em futuros conflitos. Ademais, segundo Ryan Bohl, em entrevista à DW, as estratégias atuais de Israel podem incluir criar uma zona-tampão informal no sul da Síria e manter o país enfraquecido ou fragmentado, para que não represente uma ameaça (Al Jazeera, 2025; Crisis Group, 2018; DW, 2025 ).
Exemplo disso foi o ataque da força aérea israelense em território sírio em 2013, segundo autoridades com o objetivo de impedir o envio de mísseis ao Hezbollah. As tensões regionais se agravaram em 2019 quando o então presidente norte-americano Donald Trump reconheceu oficialmente a soberania israelense sobre as Colinas de Golã, (Al Jazeera, 2013; BBC, 2019).
De modo mais recente, em 2024, a região estava dividida e ocupada da seguinte forma:
[Figura não reproduzida nesta versão. Fonte: ISW, 2024]
Já em julho de 2025, intensos combates entre milícias se iniciaram na cidade de Suwayda, no sul da Síria, região habitada por milhares de drusos. O conflito foi desencadeado por uma série de sequestros e ataques entre beduínos sunitas e grupos armados drusos, refletindo antigas rivalidades locais. Diante da escalada da violência, as Forças de Defesa de Israel realizaram diversos ataques aéreos entre 14 e 16 de julho, atingindo alvos em Daraa, Suwayda e Damasco, incluindo a sede do Ministério da Defesa sírio. Israel afirmou que suas operações tinham como objetivo proteger os drusos - já que o país havia se comprometido anteriormente com sua defesa - e desmilitarizar áreas próximas à fronteira, consideradas estratégicas para sua segurança. O governo sírio reagiu condenando os ataques israelenses, classificando-os como uma violação de sua soberania e uma ameaça à integridade territorial do país. Damasco exigiu que o Conselho de Segurança e a ONU condenassem as ações, pressionassem pela retirada das tropas israelenses e garantissem o cumprimento do Acordo de 1974 (Al Jazeera, 2025; BBC, 2025; Security Council Report, 2025).
Em setembro de 2025, contudo, Netanyahu indica uma mudança de postura em defesa à conciliação ao afirmar que existem avanços para um possível acordo de segurança com a Síria, embora sem previsão de conclusão. As negociações, mediadas pelos Estados Unidos, buscam encerrar os ataques aéreos israelenses e garantir a retirada de tropas do sul da Síria. No Conselho de Segurança da ONU, as ações israelenses dividem opiniões: a maioria as vê como violação do Acordo de 1974, enquanto os EUA as consideram defensivas (Reuters, 2025; Security Council Report, 2025).
Por fim, o conflito entre Israel e Síria é histórico e permanece sem solução: embora haja alguns diálogos e negociações, ataques ocasionais continuam e nenhum acordo diplomático definitivo foi alcançado.
Referências
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