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Observatório de Conflitos

Acompanhamento sistemático de conflitos armados e crises geopolíticas em andamento globalmente, pelo NPSeD/UFSC.

27
Conflitos
monitorados
4
Categorias
UCDP · COW
ago/2026
Última
atualização

Níger

Localização
Mapa do conflito: Níger
Classificação
Guerra Intraestatal
Guerra civil por controle central
Sahel
Status
Ativo
Principais combatentes
Forças Armadas do Níger × Estado Islâmico no Sahel (ISSP) × Jama'at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) × Boko Haram e ISWAP em áreas de fronteira

Última atualização ago/2026

Desde 2025, a instabilidade política no Níger tem sido marcada pela consolidação do regime militar instaurado após o golpe de Estado de 2023. Em 29 janeiro de 2025, o país oficializou sua saída da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), juntamente com Mali e Burkina Faso. No mês seguinte, uma conferência nacional promovida pela junta militar recomendou um período de transição de cinco anos antes da realização de eleições, além da limitação do número de partidos políticos. Em março de 2025, o líder da junta, Abdourahamane Tiani, foi formalmente empossado como presidente da transição, consolidando institucionalmente o novo regime enquanto manteve a prisão do ex-presidente Mohamed Bazoum.

Paralelamente houve a intensificação de ataques de grupos terroristas que causaram inúmeras mortes no país. Em junho de 2025 o Estado Islâmico na Província do Sahel (ISSP) atacaram e saquearam bases militares nigerinas em Banibangou causando a morte de pelo menos menos 34 soldados. Além disso, um ataque do Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) ao aeroporto Internacional do Níger deixou 11 soldados e dois civis mortos, repetindo a estratégia empregada pelo ISSP em um ataque à mesma instalação no final de janeiro.

Histórico

A República do Níger localiza-se no oeste da África, com aproximadamente 15 milhões de habitantes, região essa, também conhecida como África Ocidental, que enquanto região existe devido a ocupação da porção mais a oeste da massa continental, e também por uma institucionalização colonial. Esse desenho, inicia durante o imperialismo europeu que ocorreu no século XIX e XX, em que as potências administrativas delimitaram seus respectivos territórios em blocos regionais, entre os franceses e britânicos, estabelecido desde 1890 no respectivo território.

Ainda, diante desse cenário, segundo o War Watch (2026), encontram-se em curso curso no país dois conflitos armados não internacionais (Non-International Armed Conflicts – NIACs): de forma respectiva, entre o Estado nigerino e o Estado Islâmico na Província do Sahel (ISSP), e o segundo entre o Estado e a Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM). Essa classificação decorre da intensidade e da continuidade dos confrontos, bem como do grau de organização alcançado pelos grupos armados, que possuem estruturas hierárquicas, capacidade logística, armamentos e condições para executar operações militares coordenadas e prolongadas. Tanto o confronto com o ISSP quanto aquele envolvendo a JNIM são ainda considerados compatíveis com os critérios estabelecidos pelo Protocolo Adicional II às Convenções de Genebra, diante da capacidade organizacional e, em determinadas localidades, do controle territorial exercido por essas organizações. N

É a partir dessa lógica, que a região fronteiriça de Tillabéri, é palco da concentração de um conflito entre os grupos terrorista do Estado Islâmico (ISSP) e a Al-Qaeda (JNIM), situação agravada principalmente pleo golpe de Esado de julho de 2023, em que a junta militar liderada pelo general Tchiani rompeu alianças com forças ocidentais e recorreu a mercenários russos, como o grupo Afrika Korps (antigo Wagner Group), o que incluiu o uso de drones e aumento de mortes de civis (Africa Defense Forum, 2026).

Nessa esteira, o Níger conquistou sua independência enquanto colônia francesa apenas em 1960, e teve como primeiro presidente o líder do Partido Progressista Nigerino, Hamani Diori. Conforme apontado por Korotayev (2024), por meio de um forte alinhamento com a França, e uma intrínseca dependência militar e política do governo francês, o regime colpsou no início dos anos 1960 quando o país passava por secas severas e enfrentava, a partir daí, o primeiro golpe militar pós-independência.

Nesse contexto, em 26 de julho de 2023, o golpe de Estado foi marcado e a Guarda Presidencial deteve o presidente eleito em 2021, Mohamed Bazoum, assumindo o poder por meio do Conselho Nacional para a Salvaguarda da Pátria (CSNP) com o apoio das Forças Armadas. Dessa maneira, o General Abdourahamane Tchiani, liderou o levante de julho de 2023 e anunciou a destituição de Bazoum, autodeclarando-se o novo chefe de Estado à frente da junta militar. Tchiani, fora chefe da Guarda Presidencial do Níger por 12 anos, e na posse de Bazoum, havia impedido também uma tentativa de golpe de Estado, o que garantiu sua permanência no cargo, cargo que ocupa até os dias atuais.

Essa ruptura política inaugurada em 2023, entretanto, não significou uma reversão da deterioração do quadro de segurança no país, pelo contrário, a permanência e a expansão de organizações jihadistas demonstram as dificuldades que o novo regime enfrentou à época, sobretudo em áreas periféricas e fronteiriças. A partir disso, a região de Tillabéri, localizada na fronteira entre Mali e Burkina Faso, tornou-se um dos principais espaços de manifestação da violência armada no Níger. Historicamente também, marcado por uma forte presença francesa nos âmbitos econômico, político e securitário, que de acordo com Clarke (1977), isso advém da conquista colonial do Sahel pela França que ocorreu em meio à própria rivlaidade com outras nações europeias. Desse modo, para garantir o controle sobre este vasto território, a França elaborou estratégias voltadas para a gestão da população local e do território. A imposição de fronteiras estatais, definidas a partir de interesses coloniais ganhavam hegemonia e significado quando seus impactos passavam a ser experimentados pela população, o que era objetivo dos colonizadores. Assim, o país passou a se inserir de maneira mais evidente em uma dinâmica de competição internacional em que os Estados Unidos, China e Rússia buscam ampliar sua influência na região.

Akuma e Osuagwu (2023), destacam que essa disputa envolve, entre outros elementos, o acesso e a exploração de recursos estratégicos nigerinos, especialmente o urânio, o ouro e outros minerais. Nesse contexto, a China passou a ser apresentada como uma alternativa econômica e como parceira de desenvolvimento capaz de oferecer assistência sem as mesmas condicionalidades associadas aos países ocidentais, enquanto a Rússia buscou ampliar sua presença como possível substituta da França sobretudo no campo político e securitário. Já os Estados Unidos, por sua vez, também procuraram preservar e expandir sua influência no país diante do enfraquecimento da posição francesa, sobretudo, a partir da Air Base 201, em Agadez, infraestrutura ampliada pelos próprios EUA (Africom, 2024) para apoiar operações regionais de contraterrorismo. Nesse contexto, miltiares norte-americanos treinaram as Forças Armadas nigerinas e deram suporte a operações contra organizações vinculadas ao Estado Islâmico e à Al-Qaeda

A reconfiguração política inaugurada pelo golpe de 2023 também pode ser compreendida a partir da transformação das relações do Níger com as potências externas. Historicamente marcado por uma forte presença francesa nos âmbitos econômico, político e securitário, o país passou a se inserir de maneira mais evidente em uma dinâmica de competição internacional na qual Estados Unidos, China e Rússia buscam ampliar sua influência. Akuma e Osuagwu (2023) destacam que essa disputa envolve, entre outros elementos, o acesso e a exploração de recursos estratégicos nigerinos, especialmente o urânio, o ouro e outros minerais. Nesse contexto, a China passou a ser apresentada como uma alternativa econômica e como parceira de desenvolvimento capaz de oferecer assistência sem as mesmas condicionalidades associadas aos países ocidentais, enquanto a Rússia buscou ampliar sua presença como possível substituta da França sobretudo no campo político e securitário. Os Estados Unidos, por sua vez, também procuraram preservar e expandir sua influência no país diante do enfraquecimento da posição francesa. Dessa forma, a crise política nigerina não se limita a uma ruptura doméstica, mas também se insere em uma disputa mais ampla pela redefinição das alianças externas e pelo acesso a recursos naturais de elevada importância econômica e estratégica.

Assim, a população civil encontra-se inserida em uma dinâmica de insegurança que envolve simultaneamente a atuação de grupos islamitas armados, milícias locais de autodefesa e operações de contraterrorismo promovidas pelas forças de segurança do Estado (Global Centre For the Responsibility to Protect, 2026). É nesse contexto que o Estado Islâmico na Província do Sahel (ISSP), de forma particular, ampliou a sofisticação e a extensão de suas operações no território nigerino, ao realizar um ataque contra o aeroporto internacional de Niamey, o ataque no final de janeiro de 2026, atingiu três aeronaves civis, incluindo aviões das companhias Air Côte d’Ivoire e Asky (The Guardian, 2026). Essa conjuntura, também diz respeito ao rompimento das parcerias ocidentais, por parte do governo de Tchiani, ao retirar o Níger da ECOWAS e aproximar-se cada vez mais do Mali e Burkina Faso, por meio da Aliança dos Estados do Sahel (AES), e o ataque demonstrou a capacidade dos insurgentes de realizarem operações na própria capital e não apenas em zonas periféricas (The Guardian, 2026).

Cabe destacar, que a AES, é uma confederação de três estados governados por juntas militares, Mali, Burkina Faso e Níger, que se retiraram formalmente da CEDEAO em janeiro de 2025, e assinaram assim, um pacto de defesa mútua. Nesse sentido, os três Estados também aproximaram-se da Rússia, tratando-se também do Níger (Mali também faz esse mesmo movimento), a junta militar do Níger expulsou as tropas francesas da região e também revogou os direitos de instalação de bases militares norte-americanas.

A expansão da insurgência passou, dessa maneira, a ser acompanhada por uma crescente militarização da resposta estatal. Em dezembro de 2025, as autoridades militares declararam uma política de ‘’mobilização geral’’, o que ampliou os poderes governamentais para a requisição de civis e recursos destinados às operações de contrainsurgência. Já em março de 2026, o governo também anunciou a intenção de estabelecer organizações territoriais de autodefesa, o que incorporou atores locais à estratégia de enfrentamento aos grupos armados. Apesar de as autoridades militares justificarem sua permanência no poder, em parte, pela necessidade de restaurar a segurança nacional e combater a insurgência, a capacidade dos grupos armados de operar em extensas áreas territoriais demonstra a persistência das fragilidades estruturais do Estado e o enfraquecimento da autoridade estatal observada no Sahel Central.

Dessa maneira, o conflito nigerino contemporâneo configura-se como uma disputa armada prolongada entre o Estado e organizações armadas não estatais organizadas, inserida em um ambiente regional marcado pela deterioração da segurança e pela fragmentação da autoridade estatal.

Referências

AKUMAH, Brown Ihechiluru; OSUAGWU, Christian Onyemachi. Democratic deficits and third wave of coup d’état in the Republic of Niger. 2023.Department of Political Science, Ebonyi State University, Abakaliki; Department of Political Science, University of Nigeria, Nsukka, 2023. Disponível em: https://journals.npsa-se.org.ng/index.php/SEPSR/article/view/65/65.

AFRICA DEFENSE FORUM. Violence Against Civilians Surges in Niger’s Tillabéri Region: More than 1,200 deaths reported in the region in 2025. ADF Magazine, 7 abr. 2026. Disponível em: https://adf-magazine.com/2026/04/violence-against-civilians-surges-in-nigers-tillaberi-region/. Acesso em: 20 jun. 2026.

CLARKE, T. The Last Caravan. New York: Putnam, 1977.

GLOBAL CENTRE FOR THE RESPONSIBILITY TO PROTECT. Central Sahel (Burkina Faso, Mali and Niger). 15 jul. 2026. Disponível em: https://www.globalr2p.org/countries/mali/ .

THE GUARDIAN**.** Islamic State claims attack on international airport and airbase in Niger. The Guardian, 30 jan. 2026. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2026/jan/30/niger-airport-airbase-attack-islamic-state.

KOROTAYEV, Andrey et al. Revolutionary history of Niger: From independence to 2023 coup. In: Terrorism and political contention: New perspectives on North Africa and the Sahel region. Cham: Springer Nature Switzerland, 2024. p. 169-194.

UNITED STATES AFRICA COMMAND (AFRICOM). U.S. withdrawal from Niger completed. Stuttgart: U.S. Africa Command, 16 set. 2024. Disponível em: https://www.africom.mil/pressrelease/35590/us-withdrawal-from-niger-completed

WAR WATCH**.** Non-international armed conflicts in Niger. Geneva Academy of International Humanitarian Law and Human Rights, atual. 29 jan. 2026. Disponível em: https://warwatch.ch/situations/non-international-armed-conflicts-in-niger-2/

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