Observatório de Conflitos
Acompanhamento sistemático de conflitos armados e crises geopolíticas em andamento globalmente, pelo NPSeD/UFSC.
monitorados
UCDP · COW
atualização
Mar do Sul da China
Última atualização ago/2026
A disputa territorial e as tensões políticas continuam ativas e presentes na geopolítica da região. O conflito no mar do sul da China nos últimos meses tem se caracterizado por pequenos incidentes e disputas não armadas, porém intensas e com risco real à vida, entre China e os diversos países em disputa territorial.
Em agosto de 2025 após um exercício militar conjunto entre índia e filipinas e tensões diplomáticas advindas de falas do presidente filipino e reprimidas chinesas, dois navios chineses colidiram entre si ao tentar colidir e acuar um navio filipino na região disputada de Scarborough Shoal. Este evento, em que supostamente resultaram 2 mortes chinesas, causou uma alta de tensões e agressões reportadas pelas Filipinas, que permaneceram durante os próximos meses.
Os meses de outubro, novembro e dezembro de 2025 foram marcados por essa alta de tensões, com ambos os lados da disputa participando desta escalada. Alguns importantes acontecimentos no lado filipino foram a formação de uma força-tarefa conjunta entre Filipinas e Estados Unidos e diferentes acordos bilaterais entre as Filipinas e o Canadá e Japão. Já o lado chines consistiu de agressões como a causadora do início da escalada e um reforçamento de suas operações na região. Outro evento importante foi o conflito entre Camboja e Tailândia iniciado após uma longa tensão e disputa territorial.
Os acontecimentos no primeiro semestre de 2026 foram o curto avanço no diálogo entre Filipinas e China para tentar pôr um fim à disputa após a incomum escalada. A firmação de um pacto de segurança entre a Austrália e Indonésia visando conter a influência chinesa na região. O exercício militar realizado no conjunto entre Japão, EUA e Filipinas, como também a assinatura de um pacto militar entre Filipinas e França e o exercício militar realizado por EUA, Filipinas e Austrália. A escalada de tensões entre Vietnã e China. A prisão de filipinos acusados de espionar para a China. A acusação contra pescadores chineses de jogar cianeto em territórios de disputa entre Filipinas e China por parte das Filipinas, e o naufrágio de um navio vietnamita que contou com o esforço conjunto de resgate entre China, Filipinas e Vietnã.
Histórico
O conflito entre as Filipinas e a China no Mar do Sul da China materializa-se como um confronto assimétrico paradigmático, onde uma potência regional em ascensão, a China, emprega uma abordagem de uso de força para impor as suas reivindicações territoriais expansivas, enquanto um Estado menor, as Filipinas, recorre a uma estratégia liberal-legalista, ancorada no direito internacional e em alianças externas para defender a sua soberania. Esta disputa geopolítica marinha centra-se em áreas de imensa importância estratégica e económica, como os arquipélagos Spratly, referidos pelas Filipinas como Grupo de Ilhas Kalayaan (KIG), e o Atol de Scarborough, ambos localizados dentro da Zona Económica Exclusiva (ZEE) filipina, conforme definido pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS), em 1982. A região além de servir como uma das mais vitais rotas de comércio marítimo do mundo, também detém vastos recursos naturais, incluindo reservas significativas de petróleo, gás natural e recursos pesqueiros que são cruciais para a segurança alimentar das Filipinas. O principal ator externo neste conflito são os Estados Unidos, cujo Tratado de Defesa Mútua com as Filipinas1 adiciona uma camada de complexidade geopolítica, transformando a disputa em um potencial foco de confronto direto entre Washington e Pequim. (Poling, 2022); (ONU, 1982); (Zou, 2023)
As raízes históricas do conflito são profundas e contestadas. As Filipinas baseiam a sua reivindicação em atos de descoberta e ocupação efetiva, como os do empresário Tomas Cloma em 1947, e em decretos presidenciais, como o de Ferdinand Marcos em 1978, que declarou formalmente a soberania sobre o KIG. Em contrapartida, a China fundamenta a sua soberania na controversa “linha de nove traços”, uma demarcação herdada do governo nacionalista em 1947, que abrange quase 80% do Mar do Sul da China e que Pequim alega ser sustentada por “direitos históricos” milenares. O ponto de virada que transformou a disputa latente em um confronto aberto foi a ocupação chinesa do Recife Mischief em 1995, uma área reivindicada e próxima da costa filipina, o que foi percebido em Manila como um “despertar” para a ameaça chinesa. Após um período de relações mais cordiais e cooperação económica sob a presidência de Gloria Macapagal-Arroyo (2001-2010), que incluiu o controverso Acordo Conjunto de Levantamento Sísmico Marinho (JMSU), as tensões escalaram drasticamente com o impasse no Atol de Scarborough em 2012. Na ocasião, a China utilizou a sua superioridade naval para impedir a detenção de pescadores chineses por autoridades filipinas, resultando no controle de fato do Atol por Pequim. Este evento foi um “divisor de águas” que levou a administração do Presidente Benigno Aquino a iniciar um processo de arbitragem contra a China sob a UNCLOS em 2013. O veredito do Tribunal Permanente de Arbitragem de Haia, em 2016, foi uma vitória legal retumbante para as Filipinas, ao invalidar a “linha de nove traços” e reafirmar os direitos soberanos filipinos na sua ZEE. No entanto, a China rejeitou categoricamente a decisão, declarando-a “nula e sem efeito”. Os interesses em jogo são, portanto, existenciais para ambas as partes: para a China, trata-se de consolidar a sua soberania, garantir recursos e projetar poder na sua periferia marítima; para as Filipinas, trata-se de proteger a sua integridade territorial, os seus recursos naturais vitais e a sua identidade como nação marítima. (Permanent Court of Arbitration, 2016); (Poling, 2022); (Ye, 2019); (Wu; Zou, 2016)
A conjuntura contemporânea é caracterizada por uma escalada deliberada de ações coercivas por parte da China, que visam criar “fatos consumados” no terreno. Desde 2013, Pequim tem levado a cabo uma campanha de dragagem e construção de ilhas artificiais nos recifes que controla nas Spratlys, transformando-os em bases militares com pistas de aterragem, portos e sistemas de radar. Esta militarização é complementada pelo uso agressivo da sua guarda costeira e de uma vasta milícia marítima para assediar, intimidar e impedir as atividades filipinas, desde a pesca até à exploração de recursos energéticos. Táticas como o uso de canhões de água, manobras perigosas e o bloqueio de missões de reabastecimento à guarnição filipina no BRP Sierra Madre, encalhado no Atol Second Thomas, tornaram-se rotineiras. O incidente de março de 2021 no Recife Whitsun, onde mais de 200 navios da milícia chinesa se reuniram dentro da ZEE filipina, foi amplamente interpretado como uma tática de intimidação em larga escala. Em resposta, as Filipinas têm procurado fortalecer as suas capacidades de defesa, embora de forma modesta, mas que de forma crucial, aprofundaram a sua aliança com os Estados Unidos. A assinatura do Acordo de Cooperação de Defesa Aprimorada (EDCA) em 2014, que permite uma presença rotacional de forças norte-americanas em bases filipinas, é uma consequência direta da assertividade chinesa. Além disso, Manila tem conseguido angariar um crescente apoio diplomático e material de outras potências, como o Japão, a Austrália e as nações europeias, que partilham a preocupação com as ações de Pequim. (Erickson; Martinson, 2019); (Glaser, 2021); (Sari, 2024); (Zou, 2023).
Em conclusão, o conflito entre as Filipinas e a China no Mar do Sul da China representa um confronto duradouro entre duas abordagens fundamentalmente opostas para a resolução de disputas internacionais: a política de poder da China contra o legalismo-liberal das Filipinas. A China, através da sua superioridade militar e da sua estratégia de criar “fatos consumados”, conseguiu alterar a realidade física e operacional na região, exercendo controle de fato sobre áreas como o Atol de Scarborough e militarizando as ilhas artificiais que construiu. No entanto, esta abordagem teve um custo diplomático elevado, alienando os seus vizinhos e provocando uma reação internacional. As Filipinas, por outro lado, apesar da sua vulnerabilidade militar, alcançaram uma vitória normativa e legal significativa com a decisão arbitral de 2016. Esta vitória, embora não tenha alterado a situação no terreno, legitimou a sua posição, galvanizou o apoio internacional e fortaleceu a sua aliança com os Estados Unidos, criando um impasse complexo. A disputa, portanto, transcende a soberania sobre rochas e recifes; é uma linha da frente na contenda mais ampla sobre a futura ordem regional na Ásia-Pacífico, onde os princípios do direito internacional são postos à prova pela demonstração de força bruta e militar. A situação permanece em um estado de tensão onde a estabilidade é precária e o risco de um erro de cálculo com consequências graves é permanentemente elevado. (Poling, 2022); (Ye, 2019); (International Crisis Group, 2021); (Zou, 2023).
Referências
ERICKSON, Andrew S.; MARTINSON, Ryan D. (ed.). China’s maritime gray zone operations. Annapolis: Naval Institute Press, 2019. (Studies in Chinese Maritime Development, v. 7)
GLASER, Bonnie S. Chinese maritime coercion in East Asia: what tools can be used to respond? Testimony before the House Committee on Foreign Affairs and the House Armed Services Committee. Washington: German Marshall Fund, 29 abr. 2021. Disponível em: https://www.gmfus.org/news/bonnie-glasers-testimony-chinese-maritime-coercion-east-asia-what-tools-can-be-used-respond. Acesso em: 1 abr. 2026.
INTERNATIONAL CRISIS GROUP. The Philippines’ dilemma: how to manage tensions in the South China Sea. Asia Report, n. 316. Brussels: International Crisis Group, 2 dez. 2021. Disponível em: https://www.crisisgroup.org/rpt/asia-pacific/china/316-philippines-dilemma-how-manage-tensions-south-china-sea. Acesso em: 1 abr. 2026.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS). Montego Bay, 10 dez. 1982. Entrada em vigor: 16 nov. 1994. Disponível em: https://www.un.org/Depts/los/convention_agreements/texts/unclos/UNCLOS-TOC.htm. Acesso em: 1 abr. 2026.
PERMANENT COURT OF ARBITRATION. The South China Sea Arbitration (The Republic of the Philippines v. The People’s Republic of China). PCA Case No. 2013-19. Award. The Hague, 12 jul. 2016. Disponível em: https://pcacases.com/web/sendAttach/1801. Acesso em: 1 abr. 2026.
POLING, Gregory B. On dangerous ground: America’s century in the South China Sea. New York: Oxford University Press, 2022.
SARI, Aurel. Maritime incidents in the South China Sea. International Law Studies, Newport, v. 103, p. 1–45, 2024. Disponível em: https://digital-commons.usnwc.edu/ils/vol103/iss1/14/. Acesso em: 1 abr. 2026.
YE, Qiang. Historic rights in the South China Sea. The Korean Journal of International and Comparative Law, Leiden, v. 7, n. 2, p. 208–225, 2019. DOI: 10.1163/22134484-12340125.
WU, Shicun; ZOU, Keyuan (ed.). Arbitration concerning the South China Sea: Philippines versus China. Abingdon: Routledge, 2016.
ZOU, Keyuan (ed.). Routledge handbook of the South China Sea. Abingdon: Routledge, 2023
O Tratado de Defesa Mútua entre os Estados Unidos e as Filipinas é um pacto militar assinado em 1951. Ele estabelece que ambas as nações se apoiarão mutuamente caso uma delas seja atacada por uma parte externa, formando a base da aliança de segurança entre os dois países. ↩︎
