Observatório de Conflitos
Acompanhamento sistemático de conflitos armados e crises geopolíticas em andamento globalmente, pelo NPSeD/UFSC.
monitorados
UCDP · COW
atualização
Líbano
Última atualização ago/2026
O desarmamento do Hezbollah ao sul do Litani avançava em dezembro de 2025, mas os combates recrudesceram em março de 2026, quando o grupo entrou em confronto com Israel no contexto da guerra Estados Unidos-Irã, e rejeitou publicamente um plano de cessar-fogo anunciado por Washington em junho, que vinculou a retirada progressiva das tropas israelenses ao “desarmamento verificado” de todos os grupos armados não estatais, enquanto Israel ocupava áreas como Beaufort Castle e deslocava cerca de 1,2 milhão de pessoas. Já em agosto, Israel intensificou ataques em Ali Taher e Mansouri, no sul do país, com o embaixador americano Michel Issa, mais uma vez, condicionando o fim da escalada ao desarmamento do Hezbollah. O governo de Tel Aviv, após críticas dos Estados Unidos, por sugerir ocupação indefinida, passou a vincular formalmente sua retirada ao desarmamento verificado do grupo libanês, ainda que sem consenso sobre um mecanismo internacional de verificação.
Histórico
O conflito armado no Líbano é um dos mais complexos e persistentes do Oriente Médio contemporâneo, envolvendo questões internas libanesas, a disputa entre Israel e Palestina, e políticas de poder regionais mais amplas. Portanto, a dinâmica do conflito evoluiu em fases distintas, influenciada por mudanças internas no Líbano, transformações no movimento nacional palestino, intervenções externas e, sobretudo, pela ascensão do Hezbollah como ator central no cenário político e militar libanês.
Historicamente, as relações entre Israel e Líbano foram, em comparação com outros vizinhos árabes, relativamente estáveis nas primeiras décadas após a criação de Israel em 1948. Durante a guerra árabe-israelense daquele ano, o Líbano participou do esforço militar contra Israel, mas não desempenhou um papel central, nem sofreu derrotas territoriais extensas. Ou seja, o Estado libanês nunca representou de fato uma ameaça militar para seu vizinho de fronteira Israel. No entanto, paradoxalmente, o solo libanês tem servido como um dos principais campos de batalha entre árabes e israelenses, por isso usado por diversos atores -israelenses, palestinos, sírios e iranianos- como uma “válvula de escape” para os aspectos não resolvidos deste conflito árabe-israelense (Crisis Group, 2002). Isso tem a ver com sua posição territorial (ao fazer fronteira com a Síria ao norte e a leste, com Israel ao Sul, e ser parte do corredor do que vai ser chamado de “eixo de resistência”) e com aspectos geopolíticos mais amplos de seus vizinhos e potências internacionais- servindo, portanto, também como um campo de batalha para guerras de procuração (de Farias Franco et al., 2017).
Contudo, um elemento para entender estas intervenções têm a ver, sobretudo, com aspectos internos libaneses- o frágil equilíbrio político e social libanês, consolidado no Pacto Confessional de 1943. A divisão colonial do que era o Império Otomano deixou a região que se tornaria Líbano nas mãos da França, que por sua vez estimulou o favorecimento dos cristãos entre os diversos grupos religiosos do território1. O Líbano adotou uma divisão confessional do poder desde a sua fundação2, que reserva o cargo de presidente para um cristão maronita, o de primeiro-ministro para um muçulmano sunita e o de presidente do parlamento para um xiita. Ademais, 60% das cadeiras de deputados devem ir para as diversas comunidades cristãs, enquanto 40% para os muçulmanos. Este sistema foi concebido quando os cristãos eram maioria e, entre os muçulmanos predominavam os sunitas (Bronte, 2024). Assim, o confessionalismo é considerado um instrumento estruturante indissociável da sociedade libanesa, que possibilitou a criação deste Estado, mas que ao mesmo tempo criou uma persistente instabilidade da configuração política e a instauração de um conflito internacionalizado em seu território (de Farias Franco et al., 2017).
Isso se inicia a partir de 1947, quando mais de 100 mil refugiados palestinos, a maioria muçulmanos, se estabeleceram no Líbano após a expulsão de seu território por Israel (o Nakba), e muitos cristãos libaneses temeram perder seu peso demográfico, criando tensões internas significativas e produzindo mobilizações de movimentos sociais e a constituição de grupos paramilitares nacionalistas no Sul do Líbano (Rabih Menem, 2024). Contudo, o ponto de inflexão ocorre na década de 1970, quando a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) se instala no sul do país após ser expulsa da Jordânia (Setembro Negro). Dali, a OLP passou a realizar ataques contra Israel, utilizando o território libanês como base. Esse movimento transformou o Líbano em um novo palco da luta palestina, ao mesmo tempo em que aprofundou divisões internas, já que parte da população apoiava a causa palestina (muçulmanos xiitas), enquanto outra temia que os confrontos atraíssem represálias israelenses e desestabilizassem o país (cristãos). Essa presença não só acabou por quebrar o frágil equilíbrio do mosaico religioso libanês, como também transformou definitivamente o país num alvo militar para Israel (Bronte, 2024; Crisis Group, 2002).
A partir de então, milícias palestinas entraram em confronto com forças cristãs maronitas, especialmente o grupo Falanges Libanesas. Com isso eclode a guerra civil libanesa em 1975, entre as Falanges (integradas com outros cristãos na Frente Libanesa) e o Movimento Nacional Libanês (composto por muçulmanos, palestinos e pan-arabistas, entre outras facções). Durante esse conflito, que durou até 1990, Israel prestou ajuda aos cristãos na forma de armamentos e assessoria (Bronte, 2024).
Ademais, a incapacidade do Estado libanês de conter essas milícias comprometeu sua soberania e abriu caminho para confrontos regulares na fronteira sul, permitindo que Israel invadisse o Líbano: no sul, em 1978, estabelecendo uma zona de segurança, que esperava que servisse como uma espécie de fortaleza israelense contra futuras ações transfronteiriças- sob a vigilância e o apoio do Exército do Sul do Líbano (SLA), uma milícia formada por cristãos maronitas, então interessados em desestabilizar e expulsar a OLP; e em todo o território com a tomada de Beirute em 1982, expulsando as lideranças da OLP de vez.
A primeira invasão teve como consequência o envio de uma força de paz onusiana à região, a United Nations Interim Force in Lebanon (UNIFIL)3. Já a segunda resultou no surgimento do grupo paramilitar Hezbollah- composto sobretudo pela comunidade xiita, geralmente independente e marginalizada econômica e politicamente em comparação aos sunitas e cristãos- armado e financiado sobretudo pelo Irã, para combater a ocupação israelense (substituindo antigas facções palestinas) (Crisis Group, 2002; de Farias Franco et al., 2017). Em poucos anos, o Hezbollah tornou-se uma das milícias mais organizadas e disciplinadas do Líbano, combinando atividade militar com assistência social e participação política, através do provimento e administração de serviços públicos (educação, saúde, produção agrícola e defesa militar) (de Farias Franco et al., 2017).
Não menos importante, foi o fato de que muitos libaneses, principalmente os muçulmanos sunitas, atraídos pelas ideias difundidas pelo nacionalismo árabe, ainda defendiam o antigo ideal de unificação do Líbano ao território da Síria (de Farias Franco et al., 2017). Portanto, um outro elemento complicador do conflito é a forte influência da Síria sobre o Líbano, tendo o exército sírio entrado no Líbano em 1976. Como resultado, a Síria tem conseguido usar o Líbano e as forças libanesas (o Hezbollah, em particular) como representantes em sua batalha contra Israel, minimizando os riscos ao território sírio. Logo, o sul do Líbano, na prática, tornou-se um trunfo de Damasco: enquanto o Golã permanecesse ocupado por Israel, Israel teria que enfrentar os ataques do Hezbollah vindos do norte (Crisis Group, 2002).
A guerra civil libanesa chegaria ao fim com os Acordos de Taif, em 1989, firmados na Arábia Saudita (forte apoiador dos sunitas). Na prática, as forças de Israel continuaram presentes no sul do Líbano, mantendo o controle da zona de segurança até a total retirada das tropas no ano 2000 por determinações do Conselho de Segurança da ONU. Para o Líbano, essa retirada encerrou oficialmente a ocupação, mas não encerrou o conflito com os israelenses, pois disputas territoriais residualizadas (como nas Fazendas de Shebaa) permaneceram sem solução, fornecendo justificativa para o Hezbollah manter seu arsenal (de Farias Franco et al., 2017; Crisis Group, 2002).
A Síria, que na prática controlava o restante do território libanês, não retirou suas tropas até 2006, quando foi obrigada a abandonar aquele país após a pressão conjunta criada por manifestações populares libanesas e pela intervenção diplomática dos Estados Unidos (EUA), da França e das Nações Unidas. A remoção das tropas estrangeiras não significou o fim da influência estrangeira na política interna libanesa, que passou para a política através de duas coalizões: a Coalizão 14 de Março, que se aliou aos EUA, à França e à Arábia Saudita, sendo favorável à implementação da Resolução 1559 do Conselho de Segurança da ONU (pedindo pelo fim de todas as milícias) e anti-Síria; e a Aliança 08 de março, com Hezbollah, junto a grupos internos aliados, contra a Resolução, reforçando sua aliança com a Síria e o Irã (Council of Foreign Relations, 2025).
Desde então, a fronteira entre Israel e Líbano permanece marcada por episódios recorrentes de confrontos entre Israel e o Hezbollah, que incluem ataques de mísseis, infiltrações, e ocasionalmente assassinatos seletivos de comandantes. Em 2006 (Guerra dos 34 dias) e, mais recentemente, em 2024, Israel invade pela terceira e quarta vez o Líbano com vistas a derrotar o Hezbollah (Bronte, 2024). Esta última, tendo iniciado após o apoio do Hezbollah ao Hamas após os ataques deste em Israel em 2023, escalaram para uma intensificação do embate Israel/Hezbollah. E o que era para ser uma operação inicial de eliminação dos líderes do Hezbollah e do apoio ao retorno dos deslocados israelenses por conta de ataques constantes na fronteira, se tornou em uma campanha estendida do sul ao norte do Líbano para eliminar o Hezbollah (Council of Foreign Relations, 2025).
Embora ambos os lados pareçam evitar uma escalada total, a probabilidade de um conflito maior continua significativa, especialmente considerando o crescente alinhamento entre Hezbollah, Irã e milícias xiitas regionais, como Hamas (na Palestina), Houthis (no Iêmen) e grupos no Iraque: o chamado “eixo de resistência” contra o inimigo em comum, Israel (Rabih Menem, 2024).
Apesar disso, alguns esforços de mediação e cessar-fogo têm sido feitos, embora o sucesso destes ainda seja incerto. O primeiro é entre a Síria (após a queda de Assad em 2024) com o governo libanês, que estão realizando conversas com vistas à normalização de relações e a repatriação de refugiados sírios- apesar de ataques na fronteira entre forças sírias e o Hezbollah terem sido registrados. Já a UNIFIL, criada para dar apoio às forças libanesas no monitoramento da linha azul (na prática uma fronteira entre Israel/Líbano), por pressão dos EUA teve seu mandato estendido pelo Conselho de Segurança somente até o fim de 2026, com vistas a sua retirada a no máximo um ano- o que gerou preocupações de membros do Conselho sobre se as Forças Armadas do Líbano (LAF) teriam condições de realizar suas funções sem auxílio onusiano (Security Council Report, 2025; Crisis Group, 2025). Por fim, um cessar-fogo foi realizado entre Israel e Líbano em novembro de 2024, e por conta de uma série de violações, levaram em dezembro de 2025 ao estabelecimento de conversas diretas entre os governos dos dois países- um esforço parte do Mecanismo de Implementação da Cessação das Hostilidades, que inclui autoridades dos EUA, das ONU, de Israel, da França e do Líbano. Um passo significativo, já que o Líbano não reconhece Israel, tendo mantido contato somente por meio de canais militares (Global Post, 2025).
As causas profundas do conflito no Líbano, portanto, são múltiplas, caracterizadas sobretudo pela presença de grupos armados no território libanês e a incapacidade do Estado de exercer controle soberano pleno. Possibilitando então intervenções regionais e internacionais e o uso do território para disputas externas, como a rivalidade Irã-Israel e o conflito Iraelo-palestino, que interligam o conflito no território libanês a dinâmicas que vão além da fronteira Israel/Líbano. O conflito pode então ser sintetizado como resultado de uma mistura de política interna libanesa e competição geopolítica regional/internacional.
Referências
BRONTE, Trinidad Deiros. How did the confrontation between Israel and Lebanon begin? Keys to the historic conflict. El País English, 2024. Disponível em: english.elpais.com/international/2024-09-24/how-did-the-confrontation-between-israel-and-lebanon-begin-keys-to-the-historic-conflict.html Acesso em: set, 2025.
COUNCIL OF FOREIGN RELATIONS. Global Conflict Tracker: Conflict With Hezbollah in Lebanon, 2025.Disponível em: www.cfr.org/global-conflict-tracker/conflict/political-instability-lebanon#Background-0 Acesso em: set, 2025.
CRISIS GROUP. Middle East Endgame III: Israel, Syria and Lebanon - How Comprehensive Peace Settlements Would Look, -, International Crisis Group (ICG), 16 July 2002.
CRISIS GROUP. Crisis Watch Conflict Tracker: Lebanon, 2025. Disponível em: www.crisisgroup.org/crisiswatch/database?location[]=82 Acesso em: set, 2025.
DE FARIAS FRANCO, Marcio Magno et al. Perspectivas políticas para o Líbano: a conjuntura da crise no Oriente Médio. Revista da EGN, v. 23, n. 3, p. 785-811, 2017. DOI 10.22491/1809-3191.v23n3.p785-811
GLOBAL POST. Lebanon and Israel Hold First Direct Talks in Decades. Newsletter, dezembro de 2025.
RABIH MENEM, I. Entrevista com Issam Rabih Menem sobre o conflito entre Israel e Hezbollah no sul do Líbano e suas implicações regionais. Revista Perspectiva: Reflexões Sobre a temática Internacional, 16(31), 2024. Recuperado de https://seer.ufrgs.br/index.php/RevistaPerspectiva/article/view/141343
SECURITY COUNCIL REPORT. UN Interim Force in Lebanon (UNIFIL): Vote on Final Mandate Renewal and Drawdown, 2025. Disponível em:https://www.securitycouncilreport.org/whatsinblue/2025/08/un-interim-force-in-lebanon-unifil-vote-on-final-mandate-renewal-and-drawdown.php Acesso em: set, 2025.
Os três principais grupos religiosos no Líbano são os muçulmanos xiitas (32%), os muçulmanos sunitas (31%) e os cristãos, principalmente maronitas, que constituem outro terço da população. O país também abriga os drusos (6%) e outras comunidades menores (Bronte, 2024) ↩︎
Neste pacto as lideranças religiosas muçulmanas concordaram em interromper suas exigências para incorporar o Líbano como um Estado árabe “unido” à Síria, e aceitar as novas fronteiras do “Estado do Grande Líbano”, enquanto as lideranças cristãs maronitas aceitaram a não recorrer à França ou a outros países ocidentais em busca de apoio militar intervencionista (de Farias Franco et al., 2017). ↩︎
O mandato inicial da UNIFIL era: 1) o acompanhamento e a confirmação da retirada das forças israelenses do sul do Líbano; 2) a restauração da paz e da segurança internacionais; e 3) auxiliar o governo do Líbano a reaver sua autoridade efetiva na área. A principal inovação desta operação foi a criação da Maritime Task Force (MTF), com vistas a suspensão do bloqueio naval imposto por Israel e apoiar e treinar a marinha libanesa para o monitoramento de suas águas territoriais, protegendo a costa libanesa e prevenindo a entrada de armas não autorizadas ou material bélico relacionado no Líbano. A MTF é particularmente importante para o Brasil, pelo fato de a Força Tarefa ter sido composta e comandada pela Marinha brasileira (de Farias Franco et al., 2017). ↩︎
