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Projetos / Observatório de Conflitos / Camarões

Observatório de Conflitos

Acompanhamento sistemático de conflitos armados e crises geopolíticas em andamento globalmente, pelo NPSeD/UFSC.

27
Conflitos
monitorados
4
Categorias
UCDP · COW
ago/2026
Última
atualização

Camarões

Localização
Mapa do conflito: Camarões
Classificação
Guerra Intraestatal
Guerra civil por questões locais · por secessão
África Central
Status
Ativo
Principais combatentes
Forças Armadas de Camarões × separatistas anglófonos (Ambazonia Defence Forces — ADF e outros grupos) × Boko Haram × Estado Islâmico na África Ocidental (ISWAP)

Última atualização ago/2026

Em 2026 crise humanitária em Camarões continua sem uma solução política, com o conflito do Lago Chad e as crises do noroeste e sudoeste, cujos efeitos são reforçados pela chegada de refugiados da República Centro Africana. Em abril, a visita do papa Leão XIV a Bamenda havia provocado uma suspensão temporária das hostilidades anunciada por grupos separatistas, mas não resultou em um cessar-fogo permanente ou em avanços significativos nas negociações. Em julho de 2026, as forças de segurança anunciaram a morte de um importante comandante separatista, conhecido como “General No Mercy”, em Bambalang, no Noroeste, em mais uma operação contra as estruturas armadas que atuam na região.

Histórico

O conflito em Camarões, conhecido como a Crise Anglófona ou Crise Separatista, começou nas regiões noroeste e sudoeste anglófono, em outubro de 2016, quando professores e advogados protestaram de forma pacífica contra o governo nacional francófono alegando que estava havendo uma marginalização dos anglófonos. A repressão violenta das manifestações por parte do governo provocou a radicalização do movimento, que evoluiu em 2017, para um conflito armado separatista, com grupos armados declarando a independência da autoproclamada ‘’República Federal da Ambazônia’’. Este conflito envolve as regiões anglófonas do Noroeste e Sudoeste, onde a minoria anglófona luta pela independência do restante do país, predominantemente francófono (ICG, 2017; Beseng, Crawford e Annan, 2023).

O processo de independência de Camarões foi marcado por violência e disputas coloniais. Inicialmente colônia alemã, o território foi dividido entre França e Reino Unido após a Primeira Guerra Mundial. Na parte francesa, a luta pela independência foi liderada pela União dos Povos de Camarões (Union des Populations du Cameroun -UPC), que foi banida em julho de 1955 A independência da parte francesa foi conquistada em 1º de janeiro de 1960, sob a liderança de Ahmadou Ahidjo, que instituiu um regime autoritário alinhado com a França. Já nas áreas sob controle britânico, um plebiscito organizado pela ONU em 1961 levou a população do norte do país a se unir à Nigéria e o Sul se integrasse à República dos Camarões, criando uma federação entre os territórios francófonos e anglófonos. De acordo com o African Center for Strategic Studies (2020) em 1972, um novo referendo aboliu o sistema federativo, instaurando um Estado unitário e centralizado, resultando em um descontentamento persistente que perdura até os dias de hoje.

Os separatistas declararam a independência da República Federal da Ambazônia¹1 em 1º de outubro de 2017. Desde então, o conflito resultou em milhares de mortes e deslocamentos forçados, com muitos refugiados fugindo para a Nigéria. Os principais atores armados nesse conflito são as Forças de Defesa da Ambazônia (ADF), correspondente às antigas colônias britânicas do sul. Esse grupo militar foi formalmente estabelecido em 2017 pelo Conselho Governante da Ambazônia após o estopim do conflito com a greve dos professores e advogados e desde então tem conduzido uma campanha de guerrilha contra as Forças Armadas do governo de Camarões na busca pela independência, com o objetivo de se desvencilhar da marginalização cultural e política que sofrem dentro do país. A ADF utiliza táticas de emboscadas e incursões rápidas, aproveitando-se de seu conhecimento do terreno para enfrentar um adversário numericamente e materialmente superior. O objetivo é aumentar o custo da presença militar camaronesa na região, tornando-a insustentável (ICG, 2017)

Em 2024, o conflito persiste se agravando, especialmente nas regiões Noroeste e Sudoeste onde se iniciou. A luta se mantém na busca da independência da região conhecida como Ambazônia, e o governo central de Yaoundé. Recentemente, a violência aumentou com o início do ano letivo, resultando em ataques a escolas, raptos e atentados. A situação humanitária é crítica, com cerca de 800.000 pessoas deslocadas e mais de 6.000 mortes desde o início do conflito. A economia regional também foi severamente afetada, com muitas escolas fechadas e a produção agrícola interrompida (Takambou, 2024).

Além disso, o país tem sofrido ataques por parte do grupo extremista Boko Haram no norte, o que agrava ainda mais a situação humanitária e de segurança. Em 10 de abril de 2024, ocorreram ataques em grande escala que deixaram milhares de desabrigados. Em uma semana, militantes do Boko Haram destruíram centenas de casas, mataram pelo menos seis civis e dois soldados, e saquearam o comércio local. Os militares camaroneses têm respondido ativamente a estes ataques, matando vários militantes em retaliação. É uma situação desafiadora para os civis nas áreas afetadas, que muitas vezes são forçados a fugir das suas casas e procurar segurança em outro local. Em março de 2025, por exemplo, houve um ataque em Wulgo (na fronteira de Camarões com a Nigéria) na margem do lago Chade, e deixou dúzias de camaroneses mortos e feridos. O ministério Camarones veio se pronunciar enfatizando que o armamento avançado que o grupo Boko Haram têm cada vez mais à disposição e a aparente aliança com poderosas entidades criminosas transnacionais são fatores que contribuíram para o ataque.

Referências

AFRICA CENTER FOR STRATEGIC STUDIES. Cameroon’s Anglophone Crisis: How the Region Got to This Point. ACSS, 2020. Disponível em: https://africacenter.org/spotlight/cameroons-anglophone-crisis-how-the-region-got-to-this-point/. Acesso em: 15 jun. 2025.

ASUKWO, E. Anglophone Cameroon Crisis and the Quest for Ambazonian State. International Journal of Developing Country Studies, [S.l.], v. 2, n. 1, 2022. Disponível em:

BESENG, Maurice; CRAWFORD, Gordon; ANNAN, Nancy. From “Anglophone problem” to “Anglophone conflict” in Cameroon: assessing prospects for peace. 2023. Disponível em: https://www.ssoar.info/ssoar/handle/document/92474. Acesso em: 31 out. 2024.

DOHO, Gilbert. From literary concept to self‑proclaimed state: three generations of Anglophone‑Cameroonians at war. Journal of the African Literature Association, [S.l.], v. 14, n. 2, p. 275–293, 2020. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/21674736.2020.1808817. Acesso em: 16 jun. 2025.

INTERNATIONAL CRISIS GROUP (Brussels) (org.). Cameroon’s Worsening Anglophone Crisis Calls for Strong Measures. 2017. Disponível em: https://www.crisisgroup.org/africa/central-africa/cameroon/130-cameroon-worsening-anglophone-crisis-calls-strong-measures. Acesso em: 31 out. 2024.‌

MINISTRY of Defence (Cameroon). Accueil – portail MINDEF. Disponível em: https://mindef.gov.cm/en/. Acesso em: 2 set. 2025.

THE ASSOCIATED PRESS. Islamic militants kill 12 Cameroonian soldiers in an attack near Lake Chad. Disponível em: https://apnews.com/article/cameroon-boko-haram-attack-lake-chad-wulgo-2e7710d764c72a7e53fcc9477f48354e. Acesso em: 2 set. 2025.


  1. O nome Ambazônia tem origem geográfica e foi formalizado por razões políticas e identitárias. Em 1984, o advogado anglófono Fon Gorji Dinka cunhou oficialmente o termo como parte de sua campanha por autonomia e preservação da identidade anglófona. A palavra deriva da baía de Ambas, uma enseada na foz do rio Wouri, onde se estabeleceu em 1858 o primeiro assentamento de libertos britânicos, um marco histórico da presença britânica na região sul do que era a colônia alemã de Kamerun. A mudança também se deu como resposta simbólica à alteração de 1984 do nome oficial do país de “United Republic of Cameroon” para “Republic of Cameroon” e à remoção de uma das estrelas da bandeira, gestos percebidos por ele como um apagamento do legado da população do sul. (Doho, 2020; Asukwo, 2022) ↩︎

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