Na quinta-feira (15/10), o PPGRI/UFSC e o NPSeD receberam o professor Julien Mercille, da University College Dublin (UCD), na Sala Fulbright, para a conferência The liberal media and the war in Ukraine: war or peace?. Pesquisador de mídia, política externa dos EUA e economia política internacional, Mercille partiu da literatura de “jornalismo de paz” para perguntar se a imprensa liberal ocidental cobre a guerra de forma patriótica e belicista ou se abre espaço para alternativas negociadas. O evento contou também com a presença da professora Rosana Pinheiro-Machado, antropóloga que também integra a UCD, onde é professora de Estudos Globais e dirige o Digital Economy and Extreme Politics Lab (DeepLab).
Para testar a hipótese, o professor escolheu o jornal britânico The Guardian como “caso crítico”. A lógica: sendo o veículo mais progressista do mainstream ocidental, se até ele reproduz uma lógica de guerra, o argumento dos pesquisadores de jornalismo de paz sai fortalecido. Mercille analisou cerca de 660 editoriais e artigos de opinião sobre Rússia e Ucrânia, de 2022 até poucos meses atrás. Entre os textos que apontavam uma causa para a guerra, predominava de longe a explicação do imperialismo de Putin. Os que citavam a expansão da OTAN como fator eram uma pequena minoria, embora, lembrou ele, a ideia fosse defendida por figuras centrais do establishment americano nos anos 1990. Em 73% dos casos, segundo ele, não havia causa clara.
E o mesmo raciocínio vale para as soluções. Apoio militar aparecia em 34% dos textos, sanções em 16% e diplomacia em 12%. Mais da metade, de acordo com sua pesquisa, não propunha nada. Para Mercille, mesmo entre os que defendiam negociação, poucos enfrentavam as questões concretas: fronteiras, neutralidade, arquitetura de segurança europeia. Já sobre as iniciativas de paz de Trump, afirmou que foram descartadas pelo jornal sem alternativa.
Na segunda parte, Mercille contestou a explicação do jornalismo de paz, que atribui o viés à psicologia da audiência e às rotinas das redações, e recorreu ao modelo de propaganda de Edward Herman e Noam Chomsky. Para ele, a mídia é formada por grandes empresas, dependentes de anunciantes e de fontes governamentais e militares, e tende a refletir os interesses de grupos poderosos. Na leitura dele, a cobertura do Guardian pouco se afasta do que governos e elites europeias defendem para a Ucrânia. Ressalvou que o jornal pertence a um trust, o que atenua a aplicação do modelo, e que tem bons repórteres investigativos.
No debate, houve perguntas sobre a hipótese da culpa das elites europeias, o papel das mídias alternativas na era digital e o peso das narrativas de líderes fortes, como Trump e Putin, frente à economia política. Deixou claro que a invasão russa é errada (“isso não está em debate. A questão é: o que fazemos?”) e argumentou que a alternativa à negociação é continuar a guerra ou arriscar uma escalada nuclear.
Por fim, quando perguntado sobre onde se informar, Mercille defendeu uma dieta variada de fontes: só o mainstream dá uma imagem enviesada, só a mídia alternativa perde a reportagem de fôlego. “Você precisa de um pouco de tudo.”
Veja a ficha do evento: Conferência especial: A mídia liberal e a guerra na Ucrânia — guerra ou paz?
Fotos: Rosana Pinheiro-Machado.
