No dia 21 de outubro de 2026, o Observatório de Conflitos ministrou o minicurso “Como se observa um conflito? Introdução ao monitoramento de conflitos armados contemporâneos” durante a 23ª Semana de Ensino, Pesquisa, Extensão e Inovação (SEPEX) da UFSC. O Observatório é uma das frentes do Núcleo de Pesquisa em Política Internacional, Segurança e Defesa (NPSeD), do PPGRI/UFSC. Representando o Núcleo, os graduandos Augusto Sponchiado, Brenda Lopes, Caio Maciel, Pedro de Cordova, Rafaela Marczal e Roberto Willoughby compartilharam metodologias e ferramentas acadêmicas para o estudo e o monitoramento de crises internacionais.
O percurso foi organizado em cinco etapas: entender, monitorar, informar, fazer e refletir. Rafaela Marczal abriu a sessão com os conceitos de base. Ela mostrou como diferenciar episódios de violência armada de guerras sustentadas, lembrando que toda guerra envolve violência armada, mas nem toda violência armada constitui uma guerra. Também apresentou a tipologia adotada pelo Observatório, com guerras interestatais, extraestatais, intraestatais e não estatais, e explicou por que a guerra por procuração (proxy war) é tratada como dinâmica de um conflito, e não como categoria própria.
Em seguida, Pedro de Cordova mostrou como o Observatório funciona na prática. Ele detalhou os critérios de seleção dos conflitos monitorados, inspirados no Council on Foreign Relations, no International Crisis Group e no Uppsala Conflict Data Program. Apresentou também as perguntas que orientam cada acompanhamento: quem luta, onde, por quê, como e o que mudou. Pedro explicou ainda o Status Político do Processo, critério que classifica cada conflito como ativo, suspenso ou finalizado, e mostrou a lista de conflitos acompanhados na África, nas Américas e na Ásia.
Roberto Willoughby tratou das fontes e da linguagem. Ele discutiu os enquadramentos da imprensa e os critérios de noticiabilidade, com base em pesquisas como as de Zerback e Holzleitner e a de Marco Marsili. A partir delas, mostrou por que certos conflitos recebem grande visibilidade enquanto outros, igualmente graves, permanecem invisibilizados.
A exemplificação prática ficou a cargo de Augusto Sponchiado e Caio Maciel, que aplicaram a metodologia a dois estudos de caso. No leste da República Democrática do Congo, mostraram que a reescalada protagonizada pelo M23 desde 2022 se configura como guerra civil por questões locais, com apoio externo atribuído a Ruanda. No Iêmen, reconstituíram o conflito desde o levante houthi de 2014 e a intervenção da coalizão liderada pela Arábia Saudita. Também apresentaram o informe mais recente do Observatório, referente à primeira quinzena de outubro de 2026.
Os inscritos então passaram da escuta à análise. Depois de assistir a um vídeo explicativo sobre a guerra na Ucrânia, os participantes aplicaram os parâmetros do Observatório ao conflito entre Rússia e Ucrânia. Primeiro, reuniram acontecimentos recentes em fontes jornalísticas e institucionais para classificar o conflito como ativo, suspenso ou finalizado. Depois, examinaram as mudanças de atores, dinâmica e intensidade dos combates desde 2014 até a invasão em larga escala de 2022. Por fim, discutiram como essas transformações afetam a classificação do conflito.
Brenda Lopes encerrou o minicurso com uma reflexão sobre os limites do monitoramento. Toda classificação é um recorte, as fontes têm vieses e os números mudam com o tempo. Por isso, a transparência sobre o que se sabe, o que se estima e o que não se consegue verificar é parte do método. Ela deixou ao público três perguntas para levar diante de qualquer notícia de guerra: o que estou vendo, quem está me mostrando e o que ficou de fora.
O propósito principal do encontro foi incentivar os participantes a olhar além das manchetes, praticando uma análise de conjuntura responsável e transparente. O Observatório de Conflitos agradece a presença e o excelente engajamento de todos os participantes.
Os informes do Observatório são publicados no site do NPSeD, em npsed.org.
